terça-feira, 15 de maio de 2012

PAULO FREIRE: PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Fichamento da aula de Educação Musical do dia 03/05/2012.
Licenciatura em Educação Musical - Noturno
Docente: Enny Parejo


Depois de tantos anos penando nos umbrais do senso comum, caminhando como quase todos caminham, opinando o que quase todos opinam, finalmente a inquietude venceu o cansaço e percebi que a vida em si não é nem boa, nem má. O problema reside na ordem de importância que se estabelece para casa coisa. O dinheiro é um bom exemplo – com exemplos assim todo mundo entende, quisera todos os exemplos fossem tão eloquentes; enfim, costuma-se culpar o dinheiro pela maioria das tragédias humanas. Este aqui matou por dinheiro, aquela traiu por dinheiro, por dinheiro se mente, se rouba, se autodestrói. Ora, atribuir responsabilidades ao instrumento de trabalho e não ao instrumentador é quase como ingerir veneno e culpar a cobra. O dinheiro é mero recurso pelo qual o homem deveria lutar, desenvolver sua inteligência, traçar estratégias e contribuir para o progresso comum. Evidentemente, o papel a tudo aceita e nem tudo acontece como deveria. O homem, na sua eterna insatisfação, não se equivoca por dinheiro: mata por inconsciência, trai por má-índole, mente por interesse, rouba por ganância, se autodestrói por pura ausência de sentido e entendimento, mas insiste em dizer que a culpa vem de fatores externos, como se a reforma de consciência não dependesse única e exclusivamente de cada um.

É nesse ponto que Paulo Freire toca constantemente em sua Pedagogia da Autonomia e Pedagogia do Oprimido, obras essenciais para se entender e praticar a educação em nossas escolas, no Brasil, no mundo, posto que o homem, rico ou pobre, empregador ou subalterno, fora criado igualmente para o amor e a dor em qualquer parte desse planeta que não tem cantos mas tem arestas de sobra. Ao nos provar em suas infinitas páginas que ‘a justiça social deve se implantar antes da caridade’ (palavras do mestre, extraídas da série ‘O andarilho da utopia’), Freire nos aponta um panorama realista da sociedade e da natureza humana, apontando soluções com vistas a mudanças efetivas, que devem se iniciar na raiz do problema e não em paliativos que só contribuem para a melhoria de estatísticas. E onde mais estaria a raiz do problema senão no íntimo de cada um, na vontade de querer, no impulso que só a dor e o cansaço trazido pelo excesso de anos de vivências improfícuas pode trazer?

Muitos em minha escola se perguntam onde o caos do ensino público irá parar. Eu digo que a própria perdição levará alguns a se questionarem sobre suas ações, buscando respostas e saídas para o novo pensar: num primeiro momento, tateando como cegos que até então não se sabiam cegos, depois como indivíduos conscientes e inquietos à procura do ponto de equilíbrio entre a adversidade e a superação. Nada disso, no entanto, se dará sem os agentes provocadores. Paulo Freire chegou primeiro e fez do seu legado o primeiro passo nessa tarefa, deixando claro e evidente o que esperava de nós outros.


O SENSO COMUM

Fichamento das aulas de Educação Musical do dia 26/04/2012.
Licenciatura em Educação Musical - Noturno
Docente: Enny Parejo

A chaga da humanidade é a aversão ao refletir – nada mais evidente, seja do ponto de vista científico, social, familiar ou espiritual. Não estamos falando aqui, contudo, do ato mecânico do pensar, mero processamento de informações que é absolutamente inerente a todo e qualquer ser humano: cada qual absorve as informações que mais lhe convier e as decodifica de acordo com suas necessidades e/ou conveniências. Ato contínuo, o indivíduo que acabara de receber tais informações lança-se ao mundo a espalhar a boa-nova, a exemplo de uma garrafa à deriva, disseminando, na maioria das vezes, uma notícia cujo grau de veracidade lhe é desconhecido, bem como sua procedência e destinação.

Eis aí a sensível diferença entre pensamento e reflexão. Refletir sobre determinada questão requer tempo, pesquisa, conhecimento de causa, bom senso, consciência. Pensar, todo mundo pensa, seja no que for. Podemos, num breve instante, pensar o futebol, a moda, as últimas notícias da política, a atriz de novela, o defeito do carro, etc., sem, efetivamente, processar qualquer mudança ou desenvolver um conceito mais apurado sobre o que quer que seja. Aprofundar-se em algum assunto já é, em si, o embrião da mudança, pois dificilmente tal ação se processará sem que surja, consequentemente, uma inquietação – responsável direta pelo que chamamos de motivação, especialmente quanto ao desejo de modificação – primeiramente e relação à nossa vida e, a seguir, à sociedade em que estamos imersos.

Aqueles que fogem desse processo – e claro está que, infelizmente, ainda se trata da esmagadora maioria – acaba caindo numa teia espessa, na qual predominam as ideias acríticas ou, trocando em miúdos, pensamentos que se adquire de forma espontânea e sobre o qual pouco ou nada se reflete: o senso comum. É fácil encontrarmos exemplos dessa visão de mundo fragmentária em frases feitas copiadas à exaustão nas redes sociais, cujos méritos residem, muitas vezes, na boa construção sintática, na beleza da semântica, mas que, ao fundo, nos traz uma significação pobre, a tal vã filosofia que Shakespeare já apontava muito antes de alguém ouvir falar de Bill Gates, Steve Jobs ou Mark Zuckerberg.

Queiramos ou não, todos estamos, de certa forma, enredados na teia do senso comum sempre que comparecemos a um casamento na igreja, a um jogo de futebol ou a um shopping center. No primeiro caso, se perguntarmos à maioria dos presentes o porquê de uma união na igreja, ainda que um dos noivos não professe tal religião, certamente a resposta será o silêncio ou o pavoroso ‘porque sim’, ou ainda, ‘porque a união deve ser consumada diante de Deus’, como se Deus não estivesse em qualquer outro lugar do mundo, desde Nele que se acredite. A mesma saída pela tangente serviria também para as variações de perguntas: por que a noiva está de branco, por que alianças de ouro, entre outros porquês. No caso do jogo de futebol, qualquer torcedor acharia um absurdo que seu companheiro de torcida batesse palmas para uma bela jogada do atacante adversário: afinal, a beleza do espetáculo é, de longe, o menos importante; o que vale é a rivalidade, os milhares de irracionais que se engalfinham em nome de uma devoção cega que há muito abandonara a faceta do entretenimento. Da mesma forma, quando vamos ao shopping center (por que não ‘centro de compras’?) e adquirimos uma blusa com inscrições da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), raramente refletimos sobre o que aquilo significa. Enfim, são apenas exemplos, mas, certamente, amostras de senso comum é que não faltam no mundo.

É de se supor, portanto, que a educação não estaria isenta dessas distorções de realidade. Basta nos lembrarmos do tempo de escola e de como eram nossas avaliações: as temidas e infindáveis provas; dos alunos que eram considerados os melhores da classe: os que faziam silêncio absoluto, não contestavam o professor e terminavam todas as lições; dos melhores professores: detentores do conhecimento e transmissores da informação para os indivíduos passivos – os alunos; do livro-texto: guia das aulas e portador de verdades absolutas e incontestáveis; e assim por diante. Escusado seria dizer que hoje em dia pouca coisa mudou, principalmente na cabeça das pessoas. O aluno continua a fazer da nota sua fonte vital e, via de regra, a pensar que o bom professor é aquele que passa muita lição. Professores e gestores de escola, por sua vez, seguem a rota das conveniências, apoiando-se no que sempre se praticou, sem questionamento, permitindo que o professor, que há cinquenta anos ensinava com lousa e giz, possa executar seu oficio atualmente com a mesma estratégia.

No meio de tudo isso, há uns quantos que resistem à máquina do senso comum que arrasta o pensamento das massas, tema que aprofundaríamos tendo como alicerce a obra de nosso educador maior, tema das aulas seguintes.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Fichamento da aula de Educação Musical do dia 19/04/2012.


Licenciatura em Educação Musical - Noturno
Docente: Profa. Enny Parejo
Aluno relator: Eric Brandão Gonçalves dos Santos


Conforme os anos transcorrem, no pedregoso caminho que nos conduz ao amadurecimento, vamos agregando bagagens as mais diversas: lembranças, culturas, línguas, prudências ou imprudências que, muitas vezes, de tão arraigadas ao nosso ser, delas quase não damos conta. Há, entretanto, uma perda inevitável que também passa despercebida, mas cujos efeitos são frequentemente notados. A ousadia que em nós reluzia quando crianças vai, pouco a pouco, definhando, cedendo espaço a um adulto repleto de bloqueios, medos, complexos, justificáveis pela psicologia, mas absolutamente nocivos ao desenvolvimento da individualidade, do self.

Diante de um desafio, a criança não vacila, tampouco racionaliza a respeito das condições e probabilidades de sucesso, ela simplesmente se entrega ao seu tento. A exemplo da autodescrição de Cecília Meireles, que não era feliz nem triste, apenas poeta, a criança não se atormenta nem gasta o tempo precioso em elucubrações mentais: ela simplesmente o é. No caso dos adultos, alguma parte do que chamaríamos de uma perseverança inocente vai se perdendo pelas passagens da vida e nos tornamos aquilo que hoje somos: criaturas a viver constantemente na defensiva, como se todo e qualquer imprevisto constituísse pavorosa ameaça. Os problemas apresentados nos geram, via de regra, irritação e angústia, onde deveria existir aprendizado e superação, e é preciso um trabalho de anos, um árduo estudo visando à compreensão da mente para que um pouco da nossa antiga ousadia venha à tona.

Foi pensando nessas transformações que assisti, pela enésima vez, trechos do excelente ‘Sociedade dos Poetas Mortos’, filme de Peter Weir, no qual o professor John Keating, interpretado por Robin Williams, planta em seus alunos a semente da transformação, o mais perene dos bens dentre os que se pode adquirir. As próprias circunstâncias em que assistíramos à produção já nos levaram a tais reflexões: a ideia inicial era assistirmos a um filme de formação empresarial, mas acabamos optando por outro, uma vez que o DVD do primeiro não funcionou; o projetor apagou por três vezes, ainda nas primeiras cenas do ‘Sociedade...’; havia mau contato nas tomadas, etc. Alguns ânimos já apresentavam sinais de impaciência, mas a maioria do grupo optou pela insistência, e conseguimos assistir e debater sobre as ideias provocadoras de Keating, que colocava em constante xeque os valores tradicionalistas e mecanicistas impostos aos seus pupilos. Eu, por minha vez, fui um dos que votaram pela persistência, já que me habituara, desde os primeiros anos de docência, a trabalhar muito mais com as adversidades do que com circunstâncias favoráveis, fruto do evidente arcaísmo da nossa escola pública, onde leciono. E, conforme comentei com a professora ao final da aula, se ora escrevo linhas como essas, é porque acredito que, se tal arcaísmo ainda está longe de encontrar seu termo, deve existir algum lugar no mundo onde a possibilidade de emprego das novas ideias seja mais viável, e é a esse lugar que desejo chegar, não mais como a criança que se exalta, mas como o adulto que já se reconhece.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fichamento da aula de Educação Musical do dia 29/03/2012.

Licenciatura em Educação Musical - Noturno

Docente: Profa. Enny Parejo

Aluno relator: Eric Brandão Gonçalves dos Santos

Desde o início do século XX, quando as escolas sofreram o impacto das ideias escolanovistas, influência direta das ideias de John Dewey, dentre outros, fala-se na escola da existência, cuja sistemática possui caráter psicológico, no qual as individualidades são levadas em conta, estabelecendo o indivíduo como o centro do processo educacional. É preciso, contudo, que atentemos à semântica: impacto nunca foi sinônimo de adesão. Quando nos referimos à resistência às novas ideias propostas, que afrontam e questionam a visão tradicionalista e conservatorial do ensino de música, não nos limitamos ao ambiente escolar, mas à própria mentalidade social, em cujo plano cristalizam-se conceitos que, qual pedra que repousa há milênios sob o martelar perseverante das águas oceânicas, resistem bravamente aos irresistíveis impulsos do progresso.

Tal resistência fica clara quando trazemos à baila os pontos relevantes e questionáveis de textos como ‘Diálogo interáreas: o papel da educação musical na atualidade’, de Marisa Trench de Oliveira Fonterrada, fonte de análise e discussão de nosso grupo no dia 29.03.2012. Após breve debate em grupos de quatro pessoas, fez-se a roda, e a exemplo desta, que não possui pontas, os comentários desenvolveram-se de maneira linear, tendo como centro as precárias condições da escola pública em nosso país – e não estamos a falar da falta de subsídios ou recursos físicos, mas da escassez das almas, de todas as pobrezas a mais difícil de sanar. Vivo há oito anos essa realidade e minha convivência diuturna com as misérias sociais obrigou-me, em certo momento da docência, desenvolver um estudo na tentativa de compreender a violência presente em alguns alunos, a apatia de outros, seu paupérrimo alcance cognitivo, tudo isso fundido a um desinteresse por representativa parte do corpo docente, servidores públicos de caráter rançoso, já conformados com uma política retrógrada, que sustenta e é sustentada por uma gama de insatisfeitos que só trabalha em favor de estatísticas, mascarando com números duvidosos o que há muito deixou de ser novidade.

Dentro desse processo há, por conseguinte, uma corrente que resiste bravamente a propostas como a de Fonterrada, que busca mostrar que o ensino da música é dialógico: interage, portanto, com muitas áreas do conhecimento, mormente a psicologia (como já vimos em Koellreutter), a medicina, a antropologia e a educação ambiental. Tal flexibilidade permite que a educação musical atenda a necessidades musicais diagnosticadas – quando a sociedade assim o permite, naturalmente.

O maior paradoxo que a discussão nos trouxe foi justamente no que tange a finalidade do ensino musical: é irônico saber que uma proposta educativa inovadora, que visa o desenvolvimento, a sensibilização e a respeitabilidade humana seja justamente tolhida pela própria sociedade, que não vê nessa disciplina a miríade de potencialidades que podem ser desenvolvidas para o bem do indivíduo enquanto ser integral e do sistema social como um todo. Em face disso, ainda nos deparamos com embates que já deveriam ter sido superados, como a animosidade entre a escola tradicional e a escola nova, ou a questão disciplina versus autoritarismo em sala de aula.

A discussão ainda promete prosseguir em aulas futuras. Guardaremos, portanto, outros comentários e aprofundamentos para fichamentos posteriores, já que o assunto está longe de se esgotar, e até porque nossas breves produções não têm intenção de ultrapassar as raias de um estudo ensaístico demasiado longo. Por ora.

Fichamento da aula de Educação Musical do dia 22/03/2012.

Licenciatura em Educação Musical - Noturno

Docente: Profa. Enny Parejo

Aluno relator: Eric Brandão Gonçalves dos Santos

Arrisco dizer que, após as primeiras experiências investigativas no tocante à conceituação de música e educação musical, apenas manter a argumentação dos próximos fichamentos num patamar meramente descritivo ou mesmo limitar a fundamentação das colocações aos clichês de nível superficial seria cair num comodismo inócuo, um conformismo contraproducente ou mesmo um abominável lugar-comum, a tal cama onde se deitam a maioria das pessoas que se acostumaram a remar a favor das águas correntes, obedecendo às leis do mínimo esforço, sem questionarem a si próprios os porquês das coisas serem como são, fazendo com que a educação esteja da maneira que está. Ora, a própria pluralidade dos termos música e educação musical não permite que sejamos sucintos, tampouco esgotemos um assunto nas poucas linhas deste webfólio. Acredito que mais proveitoso será nos apegarmos, portanto, a um ou dois pontos das diversas discussões levantadas, procurando daí extrair o melhor que se possa.

Um dos pontos que chamou minha atenção na aula do dia 22.03.2012 foi justamente a dinâmica do tamborilar, gesto que consiste em bater levemente os dedos sobre uma superfície em ordem aleatória produzindo um ruído muito próximo ao gotejar da chuva nos telhados. O som é agradável e sempre me causara sensações de leveza e relaxamento quando apreciado de olhos fechados. E foi justamente o que fizemos: cada componente da turma escolheu a superfície que mais lhe convinha e, ao comando de nossa orientadora, começaram a tamborilar. Posteriormente, foi proposto que a sala fizesse o mesmo de olhos fechados. Desta vez, contudo, o trabalho seria precedido de silêncio. A própria tensão gerada no ambiente silencioso diria aos participantes qual o melhor momento para o início do tamborilar. Na primeira tentativa, o início foi quase imediato: o silêncio mal permitira que entrássemos no clima do jogo e sentíssemos a ambientação. Dito isso, o grupo tentou novamente e, após maior instante de silêncio, o tamborilar se iniciou, tendo, inclusive, uma pausa intermediária, como uma verdadeira orquestra a executar sua peça – com prelúdio, tensão, ápice e relaxamento.

O que mais me surpreendeu foi a amplitude de alcance dessa experiência, de tão simples execução mecânica, mas que pode ser usada para que o aluno vivencie todos os aspectos da música: velocidade, timbre, prática de conjunto, etc. Maiores pesquisas nos foram solicitadas e, em tempo oportuno, trataremos um pouco mais dessa atividade.

O segundo ponto relevante que podemos destacar foi a discussão sobre o texto ‘O ensino da música num mundo modificado’, do mestre H. J. Koellreutter.

É impossível que o educador ou estudante mais inquieto permaneça indiferente a um texto de Koellreutter. O humanismo presente em sua escrita nos leva a pensar a educação de maneira muito mais abrangente do ponto de vista disciplinar, psicológico e social. Nesse artigo, o mestre discorre sobre o conceito de música funcional, ou seja, a música enquanto instrumento de inserção social – argumento muito válido se considerarmos que a escuta musical é sempre permeada pelo meio em que se está inserido. Logo, se o mundo está a sofrer transformações relevantes do ponto de vista tecnológico, científico e sociocultural, é natural que a escuta e difusão musical, bem como as formas de produção também se modifiquem.

Num mundo que atualmente conta com referências as mais diversas, fruto da altíssima demanda tecnológica, a dispersão é notoriamente uma das consequências da avalanche de informações que se recebe minuto a minuto. A música tem, neste particular, um papel fundamental: ela situa o homem no mundo, fortalece sua identidade e molda de forma mais harmoniosa a mente do indivíduo moderno, que transita entre o sentimento e a racionalidade, a tecnologia e a estética.

A consciência humana foi, aliás, um dos tópicos esmiuçados em aula. Num entrecruzar de argumentos, podemos apresentar como resultante das discussões a clara ciência de Koellreutter do ponto em que a humanidade se encontra. O ser humano transita em diferentes níveis de consciência, e essa condição é diretamente responsável pelas diferentes ações e reações das pessoas com as quais nos deparamos no dia-a-dia. A música seria, portanto, um instrumento interdisciplinar capaz de sensibilizar o homem, inserindo-o num contexto sociocultural e – o mais importante – dando um sentido à sua existência.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Fichamento da aula de Educação Musical do dia 15/03/2012.

Licenciatura em Educação Musical - Noturno
Docente: Profa. Enny Parejo
Aluno relator: Eric Brandão Gonçalves dos Santos




Como águas de cachoeira que caem, retornam, voltam a cair e tornam ao alto, por caminhos incompreensíveis ou só justificáveis por meio de minuciosa investigação científica, uma mesma questão tem pontuado meus pensamentos desde a primeira semana de aulas, época em que ouvi pela primeira vez – ao menos, pela primeira vez com tamanha insistência – os termos música atonal e música concreta. A questão é, paradoxalmente, de simples construção, mas de resposta subjetiva, imprecisa, escorregadia como as tais águas da cachoeira, que nos tocam por todos os lados e, a um tempo, por lado algum: Que é música, afinal? Como se define a arte dos sons?
Num passado recente, música costumava ser, para mim, a combinação de sons e palavras. Minha própria vida sempre se confundia com ambos os elementos, feito sol e sombras. Diante das últimas aulas de educação musical, no entanto, tais conceitos ficaram bastante abalados.
O relaxamento de nossa última aula foi realizado ao som dos instrumentos inventados pelo compositor, luthier e artista plástico, Fernando Sardo. A autenticidade da música mexeu a fundo conosco, ao ponto de algumas alunas terem relatado, ao final da atividade, a vontade de chorar que sentiram, a transpiração excessiva, entre outras reações orgânicas. A escuta sensível ficou a cargo dos sons animais de Carlos Kater, extraídos de sua obra, ‘Era uma vez’. E tais sons, notoriamente música concreta, só fizeram aumentar meus questionamentos íntimos.
A discussão, aliás, prosseguiu com a busca pelas respostas a essas indagações. Foram citados músicos, educadores e pesquisadores que contribuíram efetivamente para o estudo e realização da música concreta, que já tem uma história de mais de 30 anos: Murray Schafer, Keith Swanwick e Pierre Schaeffer, de quem ouvimos um CD que continha sons de trens, conversas de pessoas, etc. Outros estudiosos de notória relevância foram citados como proposição de pesquisa: Hans Joachim Koellreutter, Marisa Fonterrada e Arnold Schoenberg, inventor do dodecafonismo. Gradativamente, suas contribuições serão citadas neste espaço.
Mesmo diante de tantas e tão grandiosas referências, penso ainda estar distante de uma resposta definitiva para o conceito musical. Mais do que isso: acredito que essa resposta não chegará nunca. Encontrar uma única assertiva para tão vasto universo seria tentar reduzir uma constelação de fontes a um denominador comum. Parece-me menos tolo cultivar a efervescência científica e musical para as quais nos aponta o futuro e sedimentar em meus pensamentos o que já era evidente, ainda que pouco embasado: o público pode se dar ao luxo de rejeitar um tipo de música; o músico, não.


terça-feira, 13 de março de 2012

Fichamento da aula de Educação Musical do dia 08/03/2012.

Licenciatura em Educação Musical - Noturno
Docente: Profa. Enny Parejo
Aluno relator: Eric Brandão Gonçalves dos Santos

Uma vez mais, a aula foi iniciada com a dinâmica, na qual alunos e professora se dão as mãos. Em pé e com olhos fechados, o grupo escutou uma música tranquila, em verdade, uma sequência de sons da natureza: chuva, vento, animais, etc.. A seguir, já sentados, os alunos tornaram a fechar os olhos e, sempre atentos à respiração, foram, uma vez mais, convidados a uma escuta musical sensível. Dessa vez, a trilha foi a ‘Pastoral’, de Stravinsky. Após a audição, o grupo, já harmonizado e concentrado, iniciou os trabalhos propriamente ditos.

As primeiras discussões giraram em torno das definições de Música e Educação Musical, pesquisadas e trazidas pelos alunos. As fontes foram as mais diversas, desde as genéricas (dicionários, sites) até as específicas (livros). O grupo concluiu que, devido ao seu aspecto multidimensional, é impossível conceituar música de forma única e definitiva. Cada aspecto desta, social ou estético, histórico ou subjetivo, engloba sua própria definição.

Elencamos, a seguir, as definições com as quais contribuímos na discussão, bem como a nossa própria:

mú.si.ca sf. 1. Arte e ciência de combinar os sons de modo agradável ao ouvido. 2. Composição musical. 3. Música escrita. 4. Conjunto ou corporação de músicos. ◊Dançar conforme a música. Agir segundo as conveniências do momento.
In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. 5ª ed. rev. ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.


A música como construção social
Teorias pós-modernas concebem que a música, assim como a arte, é definida primeiramente por seu contexto social. De acordo com essa visão, a música é o que as pessoas chamam de música, seja um período de silêncio, algum tipo de som ou sua performance. O trabalho de John Cage, 4'33", é baseado nessa concepção de música.

_______. Definições de música. Disponível em . Acesso em 28/02/2012.


'Entendo que a música, em sua amplitude de aspectos, desenvolvidos ao longo da evolução sociocultural humana, não pode ser conceituada sob um único prisma. Trata-se, portanto, de uma organização sonora, reconhecidamente constituída de ritmo, melodia e harmonia – juntas ou separadamente –, capaz de suscitar no ouvinte sentimentos e reflexões que se diferenciam de acordo com a percepção individual, regida pelo histórico de vida e a realidade social em que se está inserido. É, ainda, um retrato estético de determinado período histórico, posto que cada época destaca uma gama de elementos musicais que registram pensamentos e anseios do homem daquele período.' (Eric Brandão G. dos Santos)



Conceituar Educação Musical foi ainda mais difícil, e, certamente, o grupo, que chegou a boas conclusões, não esgotou o assunto. Seguem as nossas contribuições para a definição do tema:

'Educação musical é o conjunto de práticas destinadas a transmitir, por meio de vivências musicais, aspectos teóricos e práticos da música desta e de outras épocas. O conhecimento teórico associado às práticas musicais constitui não só um veículo de intercâmbio artístico (interação entre as partes docentes e discentes), mas também social e de cultura como um todo.' (Eric Brandão G. dos Santos)


‘É consenso geral de que a educação musical é o conjunto de práticas educacionais que transmitem o conhecimento prático e teórico do fazer musical. Essa prática é utilizada desde os primórdios do conhecimento humano, já na Grécia havia busca pelo valor da música e sua educação.’

Carbonari, Thiago. Educação musical: ideias e definições. In: FONTERRADA, Marisa Trench de Oliveira. De Tramas e fios: um ensaio sobre música e educação. 2ª Ed. São Paulo: Editora UNESP, 2008; BRITO, Teca Alencar de. Koellreutter educador: o humano como objetivo da educação musical. São Paulo: Peirópolis. 2001; GAINZA, Violeta Hemsy de. Estudos de Psicopedagogia Musical. São Paulo: Editora Summus. Disponível em . Acesso em 28/02/2012.


‘Educação musical é o conjunto de práticas destinadas a transmitir através da vivência musical a teoria e prática da música nas correntes gerações.’

_______. Educação musical. Disponível em . Acesso em 28/02/2012.



Após breve discussão, foi proposto pela professora que se formassem grupos de 4 pessoas, que se reuniriam para resolver a seguinte situação: se nos encontrássemos com um E.T., como lhe explicaríamos o termo Educação Musical?

Acalorada discussão se seguiu em nosso grupo. Após alguns minutos, chegamos finalmente a um consenso. Como estamos falando de um ser que nada sabe sobre nossa realidade, simplificaríamos a explanação ao máximo, como se o fizéssemos a uma criança. Ninguém conceitua Educação Musical de maneira acadêmica para alguém com 6 anos de idade. Antes, é necessário que a criança faça música, perceba-a acontecer ao seu redor e em seu próprio corpo. E assim foi feito: postando-nos frente ao ‘E.T.’, batemos uma sequência de palmas, convidando-o a imitar o gesto, e explicando posteriormente que isso é Educação Musical: uma troca de informações para um entendimento comum por meio de sons e não-sons.